A medicina, por ser uma profissão que exige bastante estudo e dedicação com muita responsabilidade por se tratar de vidas em sua grande maioria, ainda que não seja no assistencialismo de forma direta, carrega uma amarra de levarmos os títulos de doutores e assim nos identificarmos. Por se tratar da ciência da incerteza e da arte da probabilidade, como William Osler muito bem nos traz, somos convidados a nos autoexaminarmos diariamente uma vez que, a medida que mais adquirimos conhecimento, mais notamos que devemos exercer a humildade de reconhecer que não saber tudo e que precisamos uns dos outros para trabalhar em equipe e viver coletivamente.
Quando a medicina consome a identidade pessoal
O livro a mente minimalista, do autor Gianni Ferreira, recentemente me convidou a refletir sobre questões de ego, correlacionando também ao exercício da minha profissão. No último mês, ouvi o desabafo de uma colega que passou anos se dedicando a construir seu nome e sua carreira como médica a tal ponto que, não sabia reconhecer quem ela era por trás do jaleco. A medicina havia sugado sua existência, sua identidade e até mesmo seus hobbies. Essa pessoa estava vivendo no piloto automático, passando por uma nova etapa de reformulação de identidade, após o desligamento em uma empresa renomada no meio e tendo que prestar contas de status, roupas de grife e títulos para pessoas que, de fato, não se importavam com seu real bem-estar.
O pensamento minimalista nos convida a profunda reflexão a respeito de alguns valores e bens de consumo, fazendo-nos refletir situações que estão extremamente presentes no dia-a-dia quando observamos médicos extremamente cansados e sobrecarregados, seguirem ímpetos de compras impulsivas, caindo no consumismo desenfreado ao liberar dopamina que a falta de conexão consigo mesmos traz, contraindo dívidas e vivendo muito além do seu padrão de vida. Ou, muitas vezes, ainda que possa pagar por tudo aquilo, tentando tampar buracos e preencher vazios que o dinheiro e o status não compra.
Existe vida além do CRM?
Já discutimos previamente em aulas coletivas do Medicine Me sobre questões relacionadas às finanças médicas e uma suposta curva de felicidade, sendo crucial entendermos que boa remuneração é algo que traz sim qualidade de vida, mas até certo ponto, uma vez que se idolatrarmos o trabalho, o dinheiro, o status, ou qualquer outra questão e colocar em um pedestal, nos perceberemos, mais cedo ou mais tarde, como pessoas frustradas e sem identidade própria. Te convido a refletir junto comigo com a forma que você tem vivido seu tempo e exercido a medicina. Como você se reconhece além do seu CRM?
Como mudar de carreira: ASSISTA ATÉ O FINAL
#63 Ele virou ortopedista… e largou o consultório para virar CLT em Multinacional com tudo pronto! Assista este podcast
Sou Maria Carolina Neiva Mendonça, apaixonada por educação médica, atuando nos bastidores como embaixadora do Medicine Me